abril 04, 2004

agora que já terminou

Ainda pensei em não fazê-lo, mas de qualquer maneira o texto é meu. E acho que depois do final do concurso do Luís Ene não me ficaria mal postá-lo aqui. Aproveito para endereçar os parabéns aos vencedores. Alguns também receberam o meu voto.

Desejo

Teria sido o sonho de qualquer homem. De qualquer mulher também, mas como era um homem, supõe-se que era o seu maior sonho. Não era todos os dias que um homem encontrava um génio. Sim, um génio como aquele do Aladino. A diferença é que esta não vinha numa lamparina. Vinha numa garrafa de vinho.
Não pensem que o homem estava bêbado, antes pelo contrário. Estava sóbrio. Lúcido como nunca na vida. À minha frente a amaldiçoar a vida e o génio. Admiração minha. Então tinha um génio e estava naquele transe? E os desejos? Um respondeu-me enquanto olhava aterrorizadamente em todas as direcções. E sem retorno. Pediu, está pedido. Olhava-o até ao absurdo. Então onde está o problema? Pediste um desejo e ele não foi realizado? Foi, respondeu-me rispidamente. Tinha ido comprar uma garrafa de vinho para um almoço com um casal amigo. E tinha logo que escolher aquela marca desconhecida. Era a mais barata que isto da vida andar mais difícil nos obriga a estes gastos mais espartilhados. E os amigos não deixariam de ser amigos.
Foi ao chegar a casa que a garrafa caiu. E o génio despontou ao estilhaçar da dita. Um desejo, disse ele. Só um? Sim, e pôs-se a pensar. Dinheiro? Saúde? Mais dinheiro? Sorte? E desesperou. Não sabia o que pedir. O que fazia rolar o mundoO génio disse, tens 5 minutos. Depois vou embora ver a família. Tenho saudades. O que foi o que o último te pediu? Conseguir ganhar concursos literários. Hoje já ganhou o Nobel e saiu. Ele começou a pensar pressionado pelo tempo. O que faz o mundo realmente girar? Qual o segredo mais bem guardado? E lembrou-se.
O orgasmo feminino. Quem fosse capaz de o fornecer instantaneamente seria senhor de um grande poder. O maior poder porventura. E pediu essa capacidade. Ser capaz de dar um orgasmo com um simples beijo. Mormente na mão. Sorriu, desejou e lembrou-se que nunca mais sentiria dúvidas com a sua mulher.
Olhei esbugalhado para ele. Orgasmo feminino? E o dinheiro? Gastar-se-ia. E a saúde? Morrer-se-á sem apelo nem agravo. Então porquê andar escondido? Quando chegou a casa beijou a mulher. Êxito. Beijou castamente a amiga. Foi olhado languidamente a noite toda.
Durante uma semana gozou o aumento exponencial da sua fama. Foi passado esse lapso de tempo que desapareceu. Tinha de fugir. Não queria mais dar prazer. Obter lucro disso. Não, não ganhava dinheiro. Prestígio, boas vontades; por vezes mais importantes que o metal sonante. Não percebo. Não consigo descortinar problemas com um desejo bem pensado. Também eu pensava que sim. Que era um desejo blindado contra todos os argumentos morais, éticos. Até ter percebido que nunca mais poderia beijar a minha filha. Nunca mais. Mas isso não é o pior. Não? Não! gritou ele. Foi ter beijado a minha sogra esquecido que fiquei do meu pedido.

Publicado por chibovelho em abril 4, 2004 11:13 PM
Comentários

Folgo mumti em vê-lo de volta. Só pode ser bom sinal.

Um abraço

Afixado por: Paulo em abril 6, 2004 01:33 AM

O meu grande amigo voltou e não avisava? Eu cá até lhe perdoo, mas o Cocó ficou muito ofendido!
Espero que a Aninha dos seus olhos continue a florir a cada dia com mais força, e que desabroche para celebrar muitas mais primaveras!

Afixado por: Vi em abril 5, 2004 05:08 AM