Mais uma vez venho atrasado. Mas a família ainda anda a recuperar o tempo perdido. Cada vez mais a Anandorinha voa melhor e o irmão também merece alguma atenção nestes últimos tempos negligenciada. Vou aparecendo. Fiquem bem e não esqueçam de tentar ser felizes.
Venho desejar a todos uma Boa Páscoa. Que tenha sido deveria eu ter dito. Mas fica a intenção.
É bom saber que somos lembrados. É bom saber e sentir que apesar da distância há quem nos quer bem. É bom saber que quem se conhece virtualmente possam adquirir laços de amizade reais.
É bom estar nesta vizinhança, onde vizinhos como a D.Vi tem uma cozinha acolhedora e cheia de bons acepipes (que sorte a sua Sr. Arnaldo) e o Cócó reina pela sua agudeza de espírito. Onde outros vizinhos que recomeço a visitar continuam com a sua labuta de engrandecer este bairro. É sempre bom este sentimento de pertença. Como se diz agora: "tá-se bem!".
Ainda pensei em não fazê-lo, mas de qualquer maneira o texto é meu. E acho que depois do final do concurso do Luís Ene não me ficaria mal postá-lo aqui. Aproveito para endereçar os parabéns aos vencedores. Alguns também receberam o meu voto.
Desejo
Teria sido o sonho de qualquer homem. De qualquer mulher também, mas como era um homem, supõe-se que era o seu maior sonho. Não era todos os dias que um homem encontrava um génio. Sim, um génio como aquele do Aladino. A diferença é que esta não vinha numa lamparina. Vinha numa garrafa de vinho.
Não pensem que o homem estava bêbado, antes pelo contrário. Estava sóbrio. Lúcido como nunca na vida. À minha frente a amaldiçoar a vida e o génio. Admiração minha. Então tinha um génio e estava naquele transe? E os desejos? Um respondeu-me enquanto olhava aterrorizadamente em todas as direcções. E sem retorno. Pediu, está pedido. Olhava-o até ao absurdo. Então onde está o problema? Pediste um desejo e ele não foi realizado? Foi, respondeu-me rispidamente. Tinha ido comprar uma garrafa de vinho para um almoço com um casal amigo. E tinha logo que escolher aquela marca desconhecida. Era a mais barata que isto da vida andar mais difícil nos obriga a estes gastos mais espartilhados. E os amigos não deixariam de ser amigos.
Foi ao chegar a casa que a garrafa caiu. E o génio despontou ao estilhaçar da dita. Um desejo, disse ele. Só um? Sim, e pôs-se a pensar. Dinheiro? Saúde? Mais dinheiro? Sorte? E desesperou. Não sabia o que pedir. O que fazia rolar o mundoO génio disse, tens 5 minutos. Depois vou embora ver a família. Tenho saudades. O que foi o que o último te pediu? Conseguir ganhar concursos literários. Hoje já ganhou o Nobel e saiu. Ele começou a pensar pressionado pelo tempo. O que faz o mundo realmente girar? Qual o segredo mais bem guardado? E lembrou-se.
O orgasmo feminino. Quem fosse capaz de o fornecer instantaneamente seria senhor de um grande poder. O maior poder porventura. E pediu essa capacidade. Ser capaz de dar um orgasmo com um simples beijo. Mormente na mão. Sorriu, desejou e lembrou-se que nunca mais sentiria dúvidas com a sua mulher.
Olhei esbugalhado para ele. Orgasmo feminino? E o dinheiro? Gastar-se-ia. E a saúde? Morrer-se-á sem apelo nem agravo. Então porquê andar escondido? Quando chegou a casa beijou a mulher. Êxito. Beijou castamente a amiga. Foi olhado languidamente a noite toda.
Durante uma semana gozou o aumento exponencial da sua fama. Foi passado esse lapso de tempo que desapareceu. Tinha de fugir. Não queria mais dar prazer. Obter lucro disso. Não, não ganhava dinheiro. Prestígio, boas vontades; por vezes mais importantes que o metal sonante. Não percebo. Não consigo descortinar problemas com um desejo bem pensado. Também eu pensava que sim. Que era um desejo blindado contra todos os argumentos morais, éticos. Até ter percebido que nunca mais poderia beijar a minha filha. Nunca mais. Mas isso não é o pior. Não? Não! gritou ele. Foi ter beijado a minha sogra esquecido que fiquei do meu pedido.
Nada ficará na mesma. A religião sempre dividiu e sempre dividirá o mundo. Aqueles que matam em nome de "Deus" deveriam antes amar em nome destes.
A primavera já chegou. E como é que sei? A minha Anandorinha vai aprendendo a voar. Devagarinho, um bater de asas suave e compassado para não se cansar muito. É que isto de aprender custa. Mas a minha Anandorinha parece gostar de aprender. E a primavera sorri. Deve ser um sorriso, pois mesmo a chuva parece brilhante ao ver os esforços desta pequenina e o vento, que sopra forte, abranda para ajudar a minha Anandorinha a voar. E a nós foi devolvida uma pequena esperança. Que cultivamos todos os dias ao acordar.